No que você ta pensando hoje?

Eu estou lendo Grande Sertão Veredas. Não é uma das leituras mais fáceis que eu já fiz porque a linguagem do livro é diferente. Além das construções de palavras que Guimarães Rosa faz, o posicionamento das frases não segue uma forma tão comum. Isso faz com que, obviamente, eu leia esse livro de forma mais lenta. Preciso de mais atenção ao ler e, se perco essa atenção, preciso dar um passo pra trás e ler de novo pra me certificar que entendi.

Ilustração de Hermes Trimesgisto lendo um livo com algumas figuras de homens ao redor dele e pássaros com flechas apontando pra ele.

Tem um trecho em que Riobaldo, ainda criança, se encanta com outro garoto que o leva pra atravessar o rio de canôa. Riobado não sabe nadar. Isso rende o seguinte trecho que eu gostei bastante:

Tive medo, sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio, do outro lado. Longe, longe, com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha. A aguagem bruta, traiçoeira – o rio é cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de desamparo. Apertei os dedos no pau da canoa. Não me lembrei do Caboclo-d’Água, não me lembrei do perigo que é a “onça-d’água”, se diz – a ariranha – essas desmergulham, em bando, e bécam a gente: rodeando e então fazendo a canoa virar, de estudo. Não pensei em nada. Eu tinha o medo imediato. E tanta claridade do dia. O arrojo do rio, e só aquele estrape, e o risco extenso d’água, de parte a parte. Alto rio, fechei os olhos.

Compreensível, né? Imagina ser uma criança que não sabe nadar e estar atravessando o rio em uma canoinha pequena. Talvez essa parte me deixou pensativo por ter passado por uma situação parecida quando mais jovem. Minha mãe queria fazer um passeio até uma cachoeira. O trajeto era feito de canoa por um rio barrento. Ao entrar na canoa fui tomado por uma cegueira irremediável, uma respiração irregular e uma tempestade de lágrimas avançava da minha garganta aos meus olhos. Medo puro tomava conta de mim. Não sei do que. Como Riobaldo, eu nem estava pensando em si nos perigos que existem num rio. Eu inclusive sabia nadar. O rio barrento e a falta de visão, o desconhecido abaixo de mim, tomaram conta da minha mente e eu só tinha atenção à isso, mais nada.

Quando a gente é criança é difícil não deixar esses pensamentos tomarem conta de toda a nossa atenção. Parece algo tão forte que toma conta do nosso ser por completo, nos engole, mastiga e nos deixa irreconhecíveis. Sentimento que se torna rei do ser, subjugando todos os outros sentidos.

Não que isso não possa acontecer em outras fases da vida. Entretanto, quando criança, pode ser mais emblemático já que possuímos menos agência em relação aos nossos pensamentos. Seria incrível poder dizer pra mim mesmo que eu poderia respirar fundo, que tava tudo bem, que a canôa não ia virar assim do nada e que estávamos seguros no caminho.

O que te sustenta

Antes de continuar, quero falar contigo rapidamente sobre outra coisa.

Imagine que você é uma família que cria seu próprio alimento. Por exemplo, talvez crie galinhas, planta feijão e milho. Essas atividades levam tempo, esforço, atenção. Tem que alimentar as galinhas até elas crescerem o suficiente pra que possam ser alimento pra família. O feijão e o milho tem ciclos de desenvolvimento definidos até chegar na mesa, no prato.

Galinhas ciscando em um gramado com flores.

Se eu escolho uma dessas galinhas e, de bom grado, ofereço ela para um espírito, para uma entidade, eu estou ativamente retirando essa galinha da mesa da família, do nosso sustento, pra fornecer ao espírito, porque eu quero criar uma relação com ele. A energia que eu forneci na criação dessa galinha foi enorme. Tempo, esforço e atenção foram essenciais por bastante tempo para que ela crescesse de forma saudável e fosse abatida. É algo muito valioso porque é algo que é seu sustento.

Analogamente, o que põe comida na nossa mesa hoje? O que temos de oferecer de mais valioso quando queremos nos aproximar dos espíritos, dos guias, das entidades que temos ao nosso redor?

Tempo. Atenção.

Vendemos nosso tempo e atenção 8 ou mais horas por dia, talvez a semana inteira, para que flua dinheiro pra gente, pra que a gente consiga se alimentar, pagar nosso aluguel, nossas contas. Pra que a gente consiga se divertir e viver. A gente dá força pra tudo que damos nossa atenção. A gente alimenta e faz crescer. O exemplo mundano mais claro é que a gente faz as empresas crescerem com nosso bom trabalho. Isso acontece também nos outros planos.

Desa forma, se aproximar de um espírito pode ser tão simples quanto doar seu tempo pra ele1. Imagine o quão valioso é você ter 15 minutos pra doar pra dar atenção à entidade, tentar se conectar à ela. Você ativamente ta tirando o tempo que teria pra outras coisas que fornecem sustento na sua vida. Isso tem um valor imenso.

O que você sustenta?

Eu já falei isso antes no texto sobre meditação2. Você não é seus pensamentos. Você não é seus sentimentos. Porém, eu sei que existem momentos em que eles parecem se tornar tão grandes que a gente se identifica com eles. Medo, raiva, luxúria, um audio do tiktok. Pequenos loops vão se formando ao nosso redor, se retroalimentando e se tornando cada vez maiores. Aqui é o momento em que talvez você possa ter um problema.

Pare um pouco agora e reflita sobre as coisas que você tem dado tempo e atenção. São coisas que te alimentam? Quando foi a última vez que você sentiu o amor das pessoas próximas à você e qual a última vez que você ajudou a construir esse amor? Em um evento trágico que te deixa indignado, qual é seu foco? Você procura um vilão e alimenta o ódio por ele? Você fica alimentando esse vilão com seu tempo e atenção? Ou você busca comunidade? Acolhimento? Você busca construir relações com outras pessoas que ajudem a quebrar sistemas de opressão ou você apenas foca na opressão em si? Você foca em vingança? Você quer causar dor?

Perceba que não estou falando que você deve ser good vibes como se nada estivesse ruim no mundo. Muito pelo contrário. Tenha direção. Quero que você olhe pra si e pense se você está dando aquilo que você tem de mais valioso pra dar, seu tempo e sua atenção, pras mazelas do mundo. Se sim você está ativamente dando mais poder pra essas coisas. Pode ser que não seja poder direto, mas com certeza poder de te subjugar, como o medo e a desesperança podem fazer.

Quando o peso da existência bater, quando as tragédias acontecerem, pense em lutar pela gente, pelos nossos, construir comunidade, apoio e acolhimento pra quem precisa. Doar nosso tempo, nossa atenção, pro que pode realmente mudar a situação. Quem precisa de força são nossas comunidades, não quem nos oprime.

  1. Isso não significa que o sacrifício animal não tenha seu papel e relevância. Ele existe e é muito importante em uma série de práticas e ritualísticas. Especialmente nas religiões de matriz africana. ↩︎
  2. https://magodoagreste.com.br/2025/05/11/voce-entendeu-meditacao-errado/ ↩︎

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