Acredito que existe uma dificuldade inerente a escrever sobre o Trabalho. É um processo subjetivo e extremamente pessoal. Da mesma forma, escrevo de forma pessoal.
Há uma armadilha aqui. É possível, e diria até provável, que alguém se identifique com as palavras que transcrevo. Aconselho evitar tomar qualquer coisa como verdade absoluta ou como parâmetro para a própria experiência. Viver é um ato mágico e cada um de nós vive de forma bastante singular.
Enfim, sem mais delongas, ao assunto que eu gostaria de falar: soprinhos do além e um pouco de húbris.

Sabe quando você1 está trabalhando e recebe uma demanda não muito bem detalhada, até um pouco confusa, e sem prazo definido? Você sabe que tem que fazer. Sabe que deveria fazer logo. Faz? Não. Passa dias e dias, talvez semanas adiando a demanda até que ela explode na sua cara e vira algo pra ontem.
Essa situação é mais recorrente do que eu gostaria. Em meio às práticas diárias, enquanto medito ou mesmo em alguma atividade mundana como indo ao trabalho, penso em algo que deveria fazer — ou talvez receba um soprinho do outro lado quem sabe. Nem sempre deveria mesmo, por isso oracular é tão importante. O “problema” surge quando é algo necessário.
Aproximar-se de espíritos e entidades tem dessas. É como construir uma amizade. De alguma forma temos que manter o contato, chamar pra sair, tomar um negocinho. A relação se estreita e, com o tempo, elas chamam de volta e até pedem um favor ou outro. Da mesma forma que uma amizade, pode ser que elas parem de te chamar se você desligar na cara delas muitas vezes.
Talvez eu esteja praticando um leve ghosting2 com a galerinha do outro plano. O mundo terreno acontece, o trabalho puxa de um lado, a vida pessoal puxa de outro. Ficamos sem tempo para realizar certas operações, estudar métodos novos e realmente se jogar de cabeça.
Não sou o melhor com relações interpessoais, mas a gente tenta. Relações com espíritos conseguem ser ainda mais difíceis porque requerem um certo “salto de fé” para nós que não enxergamos ou ouvimos a galerinha do outro lado. Dificulta também quando os sinais são muito sutis e no começo há muita dificuldade em diferenciar intuição de viés pessoal.
Recentemente ouvi um episódio do podcast Glitch Bottle com o Jack Grayle. Nele, Grayle fala em um momento sobre a preparação que geralmente é necessária pra realizar a prática mágica. Há recomendações de alimentação e hábitos que nos ajudam a se conectar melhor com a galerinha do outro lado. O problema é que muitas vezes usamos essas recomendações como regra absoluta e um passo obrigatório pra qualquer operações. Grayle então fala pra ter cuidado se essas recomendações estão sendo usadas como desculpa pra não fazer o trabalho. E bem, acho que é um pouco isso sim.
Ao mesmo tempo, tento não entrar na pira de que devo algum tipo de produtividade espiritual. É muito fácil se render ao molde capitalista de que temos de ser produtivos em todos os aspectos da nossa vida. Que tempo é esse que estamos perdendo se a noção de tempo linear é algo nosso e não deles3?
Para quem não está familiarizado com o conceito de húbris4 — ὕβρις —, uma das possíveis traduções é algo nos moldes de orgulho ou arrogância contra os deuses. Certamente ficar adiando e procrastinando acender aquela velinha pro deus que vem te dando sinais há alguns meses requer uma quantidade não nula de húbris. E, nos clássicos gregos, húbris nunca leva a um final exatamente feliz.

Acho que é presunção minha chamar o que estou passando de húbris. Não sou um herói grego5. Além do mais, acredito que esse tipo de experiência é comum. Se é húbris, é coletiva ao momento em que vivemos.
Não pretendo chegar a uma conclusão ou solução mágica6 para esse problema. Reitero que é algo pessoal. O conselho final, pra mim mesmo, é: just do the Work. Faça o que tem que fazer. Cansado ou não. Preparado ou não.
Depois de alguns anos gritando com vela, eu posso atestar que é um processo transformador em todos os aspectos. Voltaria atrás pra fazer tudo de novo.
- Eu. ↩︎
- get it? GET IT? ↩︎
- Acredito que o tempo para os seres de outros planos não acontece exatamente de forma linear, as coisas acontecem sobrepostas umas as outras, mas isso é uma conversa pra outro momento. ↩︎
- Acho que a Wikipedia é razoavelmente didática nesse caso. ↩︎
- Mas gostaria de ter o corpo de um, não nego! ↩︎
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