O Evangelho Apócrifo da Bicha

Minha perspectiva sobre trauma religioso

Se você é parte da comunidade LGBTQIAPN+ como eu, é muito provável que carregue consigo um certo trauma religioso. A gente vive no Brasil e temos uma comunidade católica e evangélica expressiva que imprime na nossa cultura bastante preconceito, culpa, mágoa por qualquer coisa que não siga certos ideias cristãos. Não estou aqui pra te falar sobre como Cristo é legal e a fanbase que é o problema, nada disso. Quero entrar num ponto um pouco mais amplo e talvez ajudar outras pessoas que são parte da comunidade e se sentem, ao mesmo tempo, atraídas e avessas à espiritualidade por causa desse trauma religioso.

Deus, deuses e o Divino

Sempre gostei mais de deuses do que um Deus uno. A ideia de que apenas uma pessoa tem tudo e pensa sobre tudo é meio esquisita. Deus como pai abusivo é um ideal muito cristão. Ele vai te proteger, mas você não pode sair da linha. E é muito gostoso sair da linha quando você se sente vigiado.

Minha ideia de Deus ou de Divino é diferente. Eu sou adepto de uma ideia de que Deus é transcendente e imanente1. Isso significa que ao mesmo tempo que ele é algo que somos incapazes de entender por completo, transcendente, ele é tudo a nossa volta, poeira, pedra, tempestades, sol, mar, luz e o pote de plástico que você leva de marmita pro trabalho todo dia, imanente.

Deus é interessante na mesma medida que o Universo que vivemos é interessante. É muito mais legal entender as coisas que estão contidas no Universo e o comportamento delas entre si do que o ele por inteiro. O Universo por inteiro é inócuo, nem fede nem cheira. Assim como Deus.

Esse conceito me ajuda a me livrar um pouco da ideia do Deus pai abusivo, observador, julgador, severo. No velho testamento ele não é rei dos exércitos sem motivo. Mas meu ponto é: Deus não te fez, você É Deus2.

Onde eu encontro o Divino?

Bom eu afirmo que o Divino está em todas as coisas, então em todo lugar?

Mais ou menos.

De certa forma sim, porque tudo que é bom e ruim está contido no mesmo lugar, faz parte do mesmo ciclo, mas eu quero ajudar a sair de um conformismo cristão e não entrar nele. A imanência de um ser Divino é importante pra gente conseguir enxergar que Deus está naquela noite divertida na sauna, mas não na culpa por se divertir.

A culpa, vergonha, solidão são um produto no nosso ego. Esse ego é aquele fabricado e moldado pela nossa criação. Um ego que te vigia e torce o nariz pro que você faz ou deixa de fazer. Esse ego é mais próximo do deus cristão do que do Divino. Esse ego você pisa, mata e chuta pra longe.

Quer dizer que você não vai errar porque suas ações são parte do Divino? Também não. Se você machuca outra pessoa, efetivamente você está machucando a si mesmo. Isso quer dizer que a gente não sinta raiva de alguém e sonhe com sua queda3? Novamente não. Mas também não vou ficar gastando energia com isso.

Entretanto, pensa comigo: por que você vai alimentar esse ego se sentindo mal por aquilo que te faz feliz? Por algo que te faz bem? Sei que isso deve ser papo piegas e meio balela pra muita gente, mas se dê um minuto pra pensar em toda a energia que você gasta sentindo culpa ou mágoa. O quanto essa energia poderia ser gasta fazendo tudo que te faz bem?

Se você ta vivo lendo isso4, você não é perfeito. Encarnado nessa vida, todo fudido, fazendo o que pode pra sobreviver. A gente não ta aqui pra fazer tudo perfeito a todo o tempo ou pra ser o menino dos ovos de ouro de uma divindade. A gente ta aqui pra errar mesmo, aprender com os erros, viver da melhor forma que a gente pode viver.

Desencantamento e Reencantamento com o Mundo

Falando sobre minha experiência pessoal, tive um grande período do que eu posso chamar de desencantamento com o mundo. Já tiveram um momento em que tudo dava meio errado? Qualquer lugar que você tente caminhar é meio merda? Acho que o trauma religioso me trouxe muito isso. Você é constantemente bombardeado por uma série de valores cristãos. Esses valores estão enraizados na cabeça de todo mundo, muitos que nem frequentam a igreja.

Esses valores são, em boa parte, violentos com uma máscara de preocupação pelo nosso bem estar. Isso gera um certo rancor pela religião. Às vezes não só por uma religião, mas por todas5. Por fim, criamos numa desconfiança geral com qualquer pessoa que se diga minimamente espiritual6.

Foi com o trabalho espiritual que eu tive meu reencantamento com o mundo. Talvez foi por sorte que eu dei uma chance a me reconectar com isso. E não à toa a vida entrou nos eixos e as coisas fluem de forma mais fácil.

Bicha Divina

Minha maior expressão do Divino é peitar ser Bicha, continuar vivendo e ajudando a comunidade como posso. É poder fazer magia sendo bicha. É viver sem culpa, sem dever nada a ninguém, nem à Deus nem à Humanidade.

Eu encontro beleza e Deus em tudo que eu faço. No pé de abacate que tem aqui perto de casa, no sol que ilumina minha pele, na lua cheia vistosa a cada 28 dias, no homem que eu beijo e amo, nas bichas que vão na sauna, nas festas de sexo da comunidade, no carnaval, num estático da Gretchen. Tudo isso me traz felicidade.

Encontre o Divino em você que facilmente você vai encontrar o Divino nos outros.

  1. Esse conceito está contido em trabalhos de hermetismo clássico como o Corpus Hermeticum. ↩︎
  2. Parte dele, claro, não literalmente Deus. Queria eu ser um deus e não ter que lidar com dinheiro. ↩︎
  3. Especialmente de algum ex-governantes que agora ainda bem está inelegível e talvez seja preso num futuro próximo. ↩︎
  4. Se você está morto desconsidere e mande um salve pros meus ancestrais. ↩︎
  5. E não digo que outras religiões não carregam os mesmos preconceitos. Tem casas de candomblé e umbanda por exemplo que vão sim te discriminar e isso é uma merda. ↩︎
  6. Não ajuda que muitas pessoas que se dizem espirituais não fazem o mínimo trabalho de se melhorarem como pessoa antes. Jovem místico que quer resultado externo antes de fazer o trabalho interno pode carregar consigo as piores opiniões que alguém pode ter na vida. ↩︎


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